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Como funciona o sistema eleitoral da Argentina? Entenda o modelo do país vizinho em 2026

sistema eleitoral da Argentina

Entenda como funciona o sistema eleitoral da Argentina, a regra do ballotage e as principais diferenças e semelhanças com o modelo eleitoral brasileiro.



Você goste ou não do atual presidente argentino, é inegável que a eleição de Javier Milei colocou os holofotes internacionais sobre o sistema eleitoral da Argentina. Com um discurso disruptivo e uma vitória que surpreendeu analistas políticos de toda a região, Milei despertou curiosidade não apenas sobre suas propostas de governo, mas também sobre as próprias regras que levaram um outsider da política tradicional ao comando da Casa Rosada.

A seguir, explicamos como funciona a eleição presidencial argentina, o que são as famosas PASO (prévias obrigatórias), como funciona o Congresso do país e por que o calendário eleitoral argentino é tão mais complexo do que o brasileiro. Entender o sistema eleitoral da Argentina também ajuda o eleitor a comparar diferentes modelos democráticos, um exercício útil especialmente às vésperas das eleições 2026 no Brasil.

Uma democracia reconquistada em 1983

A Argentina retornou à democracia em 10 de dezembro de 1983, após quase oito anos de regime autoritário. Desde então, o país vem realizando eleições consideradas livres e regulares. Assim como o Brasil, a Argentina também viveu um processo de redemocratização na década de 1980 — um contexto histórico que ajuda a explicar por que os dois países, apesar das diferenças no desenho eleitoral, compartilham valores democráticos semelhantes.

Atualmente, a Argentina tem cerca de 45,5 milhões de habitantes e mais de 35,8 milhões de eleitores registrados, com uma média histórica de comparecimento às urnas superior a 70%.

Como é eleito o presidente argentino?

O presidente e o vice-presidente da Argentina são eleitos por voto direto e sufrágio universal, para um mandato de quatro anos. Até aqui, o sistema soa parecido com o brasileiro. A grande diferença aparece na regra de vitória em primeiro turno.

Enquanto no Brasil um candidato precisa obter mais de 50% dos votos válidos para vencer já na primeira votação, na Argentina o sistema é conhecido como balotagem (ballotage), e funciona de forma mais flexível: o candidato vence no primeiro turno se atingir pelo menos 45% dos votos válidos, ou então 40% dos votos, desde que tenha uma vantagem de pelo menos 10 pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Se nenhum candidato atingir essas condições, os dois mais votados disputam um segundo turno, de forma semelhante ao que ocorre no Brasil. Essa regra intermediária — que permite vitória em primeiro turno mesmo sem maioria absoluta dos votos — é uma das marcas mais distintivas do sistema eleitoral argentino, e frequentemente gera debate entre analistas políticos que acompanham a eleição do país vizinho.

PASO: as prévias obrigatórias do sistema eleitoral da Argentina

Um dos aspectos mais peculiares — e menos conhecidos pelos brasileiros — do sistema argentino é a existência das PASO, sigla para Primarias Abiertas, Simultáneas y Obligatorias (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias). Esse mecanismo obriga todos os partidos políticos a participarem de eleições primárias antes do pleito geral, independentemente de terem disputas internas ou apenas um único pré-candidato.

As PASO acontecem, tradicionalmente, no segundo domingo de agosto do ano eleitoral. Nessa etapa, os eleitores escolhem, dentro de cada espaço político, quem serão os candidatos que efetivamente disputarão os cargos na eleição geral. Qualquer cidadão pode votar em um pré-candidato de qualquer partido, mas cada eleitor tem direito a apenas um voto nesse processo.

Para seguir na disputa e participar da eleição geral, os pré-candidatos precisam atingir, no mínimo, 1,5% dos votos válidos apurados nas primárias. Quem não atinge esse percentual fica automaticamente fora da corrida eleitoral, mesmo antes da votação principal.

Mera formalidade

Vale destacar que essa exigência gera um debate recorrente na sociedade argentina: já que, em muitos casos, determinados espaços políticos apresentam apenas um pré-candidato nas PASO — tornando o processo, na prática, uma formalidade sem disputa real —, cresce entre parte da população e de analistas políticos o questionamento sobre a real utilidade de se manter esse mecanismo em todas as eleições, considerando o custo elevado de organizar um pleito nacional inteiro apenas para definir candidaturas já esperadas.

Debates obrigatórios entre os candidatos

Outra particularidade do sistema eleitoral argentino, pouco comum em outros países, é a obrigatoriedade de debates televisionados entre os candidatos aprovados nas PASO. Desde o final de 2016, ficou estabelecido por lei que os candidatos que avançam à eleição geral devem participar de, no mínimo, dois debates televisivos, organizados no período entre o início e a segunda semana de outubro.

Um desses debates precisa, obrigatoriamente, ser realizado em uma capital de província, definida previamente pela Câmara Nacional Eleitoral — órgão responsável por organizar e fiscalizar o processo eleitoral no país, com funções que lembram, em parte, as atribuições do TSE no Brasil. Caso a eleição avance para o segundo turno (balotagem), uma nova rodada de debate é realizada entre os dois candidatos remanescentes, geralmente em meados de novembro, pouco antes da votação final.

Essa exigência legal reforça o compromisso do sistema argentino com a transparência das propostas de campanha, oferecendo ao eleitor a oportunidade de comparar diretamente os candidatos antes de decidir seu voto — um instrumento que também tem ganhado força no debate público brasileiro, especialmente em torno das eleições 2026.

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Como funciona o Congresso argentino?

O Poder Legislativo argentino também segue um modelo bicameral, dividido entre Câmara de Deputados e Senado — estrutura semelhante à brasileira, ainda que com regras de renovação bem diferentes.

A Câmara de Deputados (Cámara de Diputados) é composta por 257 membros, eleitos para mandatos de quatro anos por meio de sistema proporcional. A cada dois anos, metade da Casa é renovada — alternando, a cada eleição, entre 130 e 127 cadeiras em disputa. Já o Senado é composto por 72 membros, eleitos para mandatos de seis anos, com renovação de um terço da Casa a cada eleição.

Nas eleições de 2023, por exemplo, foram disputadas 130 cadeiras de deputados e 24 vagas de senadores nacionais, ilustrando bem essa lógica de renovação parcial e escalonada do Legislativo argentino.

O sistema proporcional utilizado para deputados funciona por meio de listas partidárias fechadas: o eleitor vota no partido, e não em um candidato específico dentro da lista — diferentemente do modelo brasileiro, no qual o eleitor escolhe diretamente um nome dentro da legenda partidária.

sistema eleitoral da Argentina

O complexo calendário eleitoral das províncias argentinas

Um dos pontos mais curiosos do sistema eleitoral argentino — e que mais chama atenção de quem está acostumado com o calendário unificado do Brasil — é a total autonomia das 23 províncias argentinas (mais a Cidade Autônoma de Buenos Aires) para definir suas próprias datas de eleição para governador e cargos locais.

Em 2023, por exemplo, esse calendário foi extremamente fragmentado. A província de La Pampa abriu o ano eleitoral com primárias em fevereiro e eleição geral em maio. Já províncias como Río Negro e Neuquén optaram por não realizar primárias, indo direto à eleição geral em abril. Outras, como Misiones, La Rioja e Jujuy, seguiram o mesmo caminho, também sem PASO, em maio.

Províncias como San Juan, Salta, Tucumán e Tierra del Fuego realizaram suas eleições diretamente em meados de maio, enquanto San Luis e Mendoza optaram por calendários próprios ao longo do primeiro semestre. Santa Fé, por sua vez, organizou primárias em julho e eleição geral em setembro. Já Chaco e Chubut dispensaram etapas intermediárias, indo direto à votação em setembro e julho, respectivamente.

Calendário eleitoral nacional

Somente parte das províncias — caso de Buenos Aires (a província, que não deve ser confundida com a capital do país), Catamarca, Entre Ríos, Santa Cruz e a própria Cidade Autônoma de Buenos Aires — integrou o calendário eleitoral nacional, votando nas mesmas datas das PASO e da eleição geral para presidente. Por fim, províncias como Santiago del Estero e Corrientes sequer realizaram eleição para governador em 2023, já que haviam escolhido seus governantes em pleitos anteriores, em 2021.

Essa descentralização total do calendário eleitoral é uma das diferenças mais marcantes entre Argentina e Brasil. Enquanto no sistema brasileiro todas as eleições municipais, estaduais e federais seguem datas unificadas, definidas nacionalmente, na Argentina cada província tem liberdade para organizar seu próprio processo eleitoral, dentro dos limites estabelecidos pela Constituição Nacional.

+ Guia do Voto: Como funciona a eleição nos Estados Unidos?

Voto obrigatório, mas com particularidades

Assim como no Brasil, o voto é obrigatório na Argentina para cidadãos entre 18 e 70 anos. Já os jovens de 16 e 17 anos, assim como os maiores de 70 anos, têm a opção de votar, mas não são obrigados — uma regra bastante parecida com a adotada pelo sistema eleitoral brasileiro.

Argentina x Brasil: principais diferenças

Comparando os dois sistemas, algumas diferenças se destacam claramente. A regra de vitória em primeiro turno é mais flexível na Argentina (45% dos votos válidos, ou 40% com vantagem de 10 pontos) do que no Brasil, que exige maioria absoluta. A existência das PASO torna o processo eleitoral argentino mais longo e custoso, já que até candidatos únicos de um partido precisam, formalmente, participar de uma prévia obrigatória antes da eleição geral — mecanismo inexistente no sistema brasileiro. Os debates televisionados também são obrigatórios por lei na Argentina, enquanto no Brasil eles dependem, majoritariamente, de acordos voluntários entre emissoras e candidatos. Por fim, o calendário eleitoral argentino é extremamente descentralizado, com cada província definindo suas próprias datas para eleições locais, ao contrário do modelo unificado adotado no Brasil, no qual todas as eleições municipais, estaduais e federais ocorrem simultaneamente, em datas definidas nacionalmente pelo TSE.

Apesar dessas diferenças, os dois países compartilham elementos importantes, como o voto obrigatório para a maioria da população adulta, a eleição direta para presidente e a adoção de sistema proporcional para parte do Legislativo — reforçando que, mesmo com desenhos institucionais distintos, ambos os sistemas buscam garantir representatividade e legitimidade democrática em suas eleições.

Por que entender o sistema eleitoral da Argentina interessa ao eleitor brasileiro?

Conhecer como funcionam os sistemas eleitorais de outros países, especialmente de vizinhos próximos como a Argentina, ajuda a colocar em perspectiva o próprio modelo brasileiro. Permite entender, por exemplo, por que certos temas — como a adoção de prévias partidárias obrigatórias, mudanças nas regras de segundo turno ou a obrigatoriedade de debates entre candidatos — eventualmente aparecem no debate político nacional, já testados, com resultados variados, em países vizinhos.

Esse tipo de comparação também ajuda o eleitor brasileiro a acompanhar com mais clareza o noticiário internacional durante os períodos eleitorais argentinos, um país cuja estabilidade política e econômica tem impacto direto nas relações comerciais e diplomáticas com o Brasil, especialmente no contexto do Mercosul.

Aqui no Guia do Voto, seguimos explorando diferentes sistemas eleitorais ao redor do mundo, sempre com o objetivo de tornar a política mais compreensível — e ajudar você a exercer sua cidadania de forma mais informada, seja acompanhando o processo eleitoral brasileiro rumo às eleições 2026, seja entendendo o funcionamento democrático de outros países da região.


Referências

Cadena SER — “¿Cómo funcionan las elecciones en Argentina? Así es el sistema electoral que puede ‘frenar’ a Javier Milei”. Disponível em: cadenaser.com

Cámara Nacional Electoral (CNE) — “Organización Electoral y Procesos Electorales en la República Argentina” (FAQ institucional sobre PASO, eleições gerais, votação e apuração). Disponível em: electoral.gob.ar

Chequeado — “Qué es el balotaje, cómo funciona y cuándo es en la Argentina”. Disponível em: chequeado.com


Atualizado: 26/08/2026