Descubra como o Brasil votava antes da urna eletrônica: cédulas de papel, fraudes, urnas grávidas e a revolução do voto eletrônico.
Sumário:
Em 1988, um chimpanzé recebeu 400 mil votos nas eleições para prefeito do Rio de Janeiro. Ele terminou em terceiro lugar. E não, não era brincadeira: tratava-se de uma eleição oficial para o comando do executivo de uma das maiores cidades do Brasil.
Como isso foi possível? A resposta está no sistema de votação usado antes da urna eletrônica — um modelo tão aberto que permitia situações curiosas como essa, mas que, ao mesmo tempo, também abria brechas para fraudes e falhas estruturais graves. Entender essa história ajuda a compreender por que o Brasil hoje é referência mundial em votação eletrônica, e por que esse tema segue relevante mesmo às vésperas das eleições 2026.
Neste artigo, vamos mostrar como o país votava antes da urna eletrônica, os absurdos que esse sistema permitia e por que essa mudança se tornou inevitável para a democracia brasileira.
A origem do voto no Brasil
O Brasil vota com cédulas desde a Proclamação da República, em 1889. Mas, nos primeiros anos da República, o voto sequer era secreto: era aberto, declarado em voz alta ou registrado em uma cédula que qualquer pessoa podia ver.
Nesse período, dominavam os chamados coronéis — líderes políticos locais que controlavam o voto dos moradores de suas regiões por meio de uma combinação de favores, pressão e, muitas vezes, ameaças. Esse fenômeno ficou conhecido como voto de cabresto, e durante décadas foi a regra, não a exceção, na política brasileira.
As eleições só começaram a se democratizar de fato a partir de 1945, quando o país restabeleceu a Justiça Eleitoral, extinta durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. Os partidos políticos voltaram a atuar de forma mais ativa no processo eleitoral, e as cédulas passaram a contar com maior controle oficial.
As cédulas de papel
Por décadas, votar significava pegar uma cédula impressa, marcar ou escrever o nome do candidato escolhido, dobrar o papel e depositá-lo em uma urna física. Mas havia um detalhe pouco lembrado hoje: até 1955, as próprias cédulas não eram produzidas pelo governo — eram impressas e distribuídas pelos candidatos e partidos políticos. Ou seja, o eleitor recebia o papel de votar diretamente das mãos de quem estava pedindo seu voto.
A cédula única oficial, produzida pelo TSE, só passou a existir com a Lei nº 2.582, e Juscelino Kubitschek foi o primeiro presidente eleito sob esse novo modelo, em outubro de 1955. A universalização da cédula oficial para todas as eleições do país só ocorreu em 1962, com a Lei nº 4.109.
Mesmo com a padronização, o sistema continuava enfrentando problemas sérios. Em eleições com muitos candidatos, a cédula podia conter dezenas de nomes, tornando o processo confuso especialmente para eleitores com pouca escolaridade. Qualquer erro de grafia, rasura ou marca fora do lugar podia anular o voto. E, na hora da apuração, fiscais de diferentes partidos frequentemente entravam em conflito tentando interpretar qual era a real intenção do eleitor — quando não havia consenso, o voto era simplesmente descartado.
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As urnas físicas
Antes da urna eletrônicas, a votação era através de cédulas, que eram depositadas em urnas físicas — verdadeiros baús, fabricados com diferentes materiais ao longo da história eleitoral brasileira.
Durante o período imperial e até a década de 1950, as urnas eram feitas de madeira, pesadas, com abertura na parte superior para depósito das cédulas e uma saída na parte inferior para retirada dos votos, tudo fechado com fechadura. Já na década de 1950, buscando facilitar o transporte, o material passou a ser a lona: primeiro a lona branca, usada até 1974, com fechamento por zíper e lacre de chumbo; depois, a lona marrom, que se tornou o modelo padrão até a chegada da urna eletrônica.
Basta imaginar a cena: urnas de lona sendo transportadas por estradas de terra no interior do país, lacradas com chumbo, aguardando dias para serem apuradas. Cada etapa desse trajeto representava uma nova oportunidade para fraudes.

Os absurdos que o sistema permitia
Uma das fraudes mais conhecidas da época até tinha nome: a urna grávida. O truque consistia em depositar cédulas já preenchidas dentro da urna antes mesmo de a votação começar, fazendo com que ela “nascesse” cheia de votos falsos no próprio dia da eleição.
Mas não eram apenas as fraudes que tornavam o sistema problemático. Como as cédulas permitiam escrever qualquer nome, muitos eleitores passaram a usar o voto como forma de protesto — e foi assim que aconteceram alguns dos episódios mais bizarros da história eleitoral brasileira.
Em 1959, a rinoceronte Cacareco, do Zoológico de São Paulo, recebeu quase 100 mil votos para vereadora da capital paulista — quantidade que, teoricamente, seria suficiente para garantir uma cadeira na Câmara Municipal.
O caso mais famoso, porém, é o do macaco Tião, chimpanzé que vivia no Zoológico do Rio de Janeiro e havia ficado conhecido por ter atingido o rosto do então prefeito carioca Júlio Coutinho com terra. Em 1988, o tabloide humorístico Casseta Popular lançou o primata como candidato a prefeito da cidade. Resultado: Tião recebeu 400 mil votos e terminou em terceiro lugar entre os candidatos mais votados no Rio de Janeiro.
Esses episódios costumam arrancar risadas até hoje, mas escondem um problema sério: um sistema eleitoral capaz de eleger — ou quase eleger — animais revela falhas estruturais profundas na forma como o voto era organizado e apurado no país.
A apuração que durava dias
Se votar já era um processo complicado, antes da urna eletrônica a apuração era ainda mais caótica. Encerrada a votação, as urnas físicas eram lacradas e transportadas até os locais de apuração, onde fiscais de todos os partidos se reuniam para contar os votos, um a um, manualmente.
Esse processo podia durar horas — muitas vezes, dias inteiros. Era comum que o resultado de uma eleição só fosse conhecido na madrugada seguinte, ou até dias depois, especialmente em municípios do interior, onde o transporte das urnas enfrentava dificuldades logísticas.
Durante todo esse período, acusações de fraude circulavam de todos os lados: urnas poderiam ser trocadas no caminho, cédulas inseridas ou retiradas, e a subjetividade na avaliação de votos válidos e inválidos abria espaço para decisões que, embora apresentadas como técnicas, muitas vezes carregavam motivação política.
A exclusão dos analfabetos
Um dos problemas mais graves do sistema de cédulas de papel era a exclusão de parte significativa da população. Por décadas, pessoas analfabetas simplesmente não tinham direito ao voto no Brasil. Quando esse direito foi finalmente conquistado com a Constituição de 1988, o sistema de papel continuou representando um obstáculo enorme, já que o eleitor precisava saber ler e escrever para preencher corretamente a cédula. Eleitores com deficiência visual também ficavam, na prática, excluídos do processo eleitoral.
A inclusão plena desses grupos só se tornaria realidade anos depois, com a chegada de uma nova tecnologia de votação.
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O nascimento da urna eletrônica
No início dos anos 1990, o Tribunal Superior Eleitoral começou a desenvolver e testar um sistema capaz de substituir as cédulas de papel de forma mais segura e acessível para todos os eleitores. Em 1996, a urna eletrônica foi utilizada pela primeira vez no país, em caráter experimental, nas eleições municipais de 57 cidades com mais de 200 mil eleitores.
O resultado foi tão positivo que, já nas eleições de 2000, todo o território nacional passou a votar eletronicamente. O Brasil se tornou, assim, o primeiro país do mundo a realizar eleições totalmente informatizadas em escala nacional — um marco na história do próprio sistema eleitoral brasileiro.
A grande inovação para os eleitores analfabetos foi a inclusão da foto do candidato na tela da urna. Pela primeira vez, uma pessoa que não sabia ler podia votar de forma completamente independente, sem precisar de ajuda de terceiros — um avanço significativo para a inclusão democrática no país.
O que mudou com a urna eletrônica
A transformação foi radical. A apuração, que antes podia levar dias, passou a ser concluída em poucas horas. Na eleição presidencial de 2002, com mais de 115 milhões de eleitores aptos a votar, o resultado já era conhecido na mesma noite da votação.
A fraude na contagem dos votos tornou-se muito mais difícil de ser executada, o voto de cabresto perdeu força — já que o eleitor passou a votar sozinho, diante de uma tela, sem intermediários — e a inclusão de analfabetos e deficientes visuais se tornou efetiva, com recursos como braile e fone de ouvido disponíveis em todas as urnas eletrônicas do país.
A polêmica do voto impresso
Ainda hoje, décadas depois da implementação da urna eletrônica, um debate segue presente no cenário político brasileiro: a possibilidade de adoção do chamado voto impresso.
Os defensores dessa ideia argumentam que um comprovante físico do voto adicionaria uma camada extra de segurança ao processo eleitoral, permitindo que o próprio eleitor confira se sua escolha foi corretamente registrada, além de possibilitar auditorias manuais em caso de contestação dos resultados. O argumento central costuma ser o da transparência: por mais seguro que seja um sistema digital, ele continua sendo, de certa forma, invisível ao cidadão comum — e o papel, segundo esses defensores, criaria uma ponte entre o voto e a confiança pública no resultado eleitoral.
Países como Alemanha, Canadá e Estados Unidos utilizam alguma forma de registro físico em seus processos de votação, e defensores do voto impresso no Brasil costumam citar esses exemplos para argumentar que tecnologia e papel não precisam ser, necessariamente, excludentes. Para eles, a proposta não representa desconfiança em relação à urna eletrônica, mas sim a criação de mecanismos adicionais de verificação, capazes de tornar qualquer questionamento sobre resultados eleitorais mais fácil de ser respondido com evidências concretas.
Por que conhecer essa história importa para o eleitor de 2026
Olhar para o passado do sistema eleitoral brasileiro ajuda a entender o presente — e a valorizar conquistas que hoje parecem óbvias, como a rapidez na apuração dos resultados ou a possibilidade de qualquer cidadão, alfabetizado ou não, votar de forma autônoma e segura.
Às vésperas das eleições 2026, com pesquisas eleitorais, debates entre candidatos e uma intensa disputa pelo voto do eleitor, vale lembrar que o sistema que hoje parece simples e natural é resultado de mais de um século de tentativas, erros e aprendizados. Conhecer essa trajetória é também uma forma de exercer cidadania de maneira mais consciente, entendendo o valor — e os desafios — da democracia brasileira construída ao longo do tempo.
Aqui no Guia do Voto, seguimos explicando, de forma simples e didática, a história e o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro, para que você chegue às eleições 2026 mais informado sobre o passado, o presente e o futuro do voto no país.
Referências
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — “Conheça a evolução da urna eletrônica de 1996 a 2024”. Disponível em: tse.jus.br
Consulta em 08/09/2026

